quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Deixar ir (de nossas ilusões)


Hoje li um belíssimo trecho do livro “You are here” do monge Thich Nhat Hanh, postado no blog http://sangavirtual.blogspot.com. Tão significativo foi para mim que quase que imediatamente decidi abordá-lo nessa postagem.

Este texto nos fala sobre o desapego como o único caminho para a verdadeira felicidade. Para mim essa frase faz todo o sentido. No meu modo de ver, o desapego descrito aqui não se refere apenas aos bens materiais, mas principalmente às nossas idéias. Em um sentido mais amplo, bens materiais são também idéias (de felicidade, segurança, conforto, status, etc).

Em cada fase da minha vida criei ideais de felicidade. Receitas que me levariam a uma vida plena e cheia de satisfação. Receitas estas, tantas vezes modificadas, ao ponto de me fazer perceber que a própria idéia de um “caminho para felicidade” é imatura. A felicidade deve fazer parte de seu caminho.

O mesmo texto narra uma passagem em que Buda e seus discípulos foram abordados por um fazendeiro que lhes perguntou: Veneráveis monges, vocês viram minhas vacas por aqui? Eu tenho dezenas de vacas e elas fugiram. Além disso, eu tenho cinco acres de plantação de gergelim e este ano os insetos comeram tudo. Eu acho que vou me matar. Eu não posso continuar a viver assim”.

Buda sentiu forte compaixão por aquele homem. Disse-lhe que não havia visto suas vacas. Quando o fazendeiro se foi, o Buda se voltou para seus monges e disse: “Meus amigos, sabem por que vocês são felizes? Porque vocês não têm vacas para perder”.

Não sou um monge, e não digo que devemos abrir mão de nossas posses. Nem sequer entendo esta passagem como uma ode àqueles que, por opção, vivem apenas com a roupa do corpo. Não se trata do clichê do “Rico infeliz” x “miserável alegre”, mas do fato de que muitas vezes nos tornamos escravos de nossos ideais e das coisas que julgamos serem tão essenciais que não poderíamos viver sem. Uma mente escravizada nunca será feliz. Em resumo, acredito que seja rico, pobre, belo, feio, poderoso, humilde, no fim, nossa felicidade será medida pela média de sorrisos e momentos de paz que tivemos em cada um de nossos dias.

Libertar a mente não é uma tarefa fácil. Nossas ilusões são tão intricadas não há como nos desfazermos apenas de uma por vez. A renúncia de uma influencia em outra. Como um grande emaranhado de barbantes onde não é possível desembaraçar e livrar-se apenas de um. É preciso estar disposto a, calmamente, desatar os vários nós que aprisionam nossa mente.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Diligência (comprometimento com nossas tarefas)


Ao olharmos para trás, nos parecem incontáveis as inúmeras atividades que já exercemos durante nossa vida. Vivemos fases nas quais nos dedicamos aos mais diversos tipos de esportes, brincadeiras, artes, relacionamentos, estudo, etc. Sendo assim, não podemos achar que nosso tempo de vida nos permita chegar a excelência de cada tarefa que assumimos.


No entanto, enquanto algumas atividades tornam-se lembranças, outras continuam a fazer parte de nosso momento presente, e a estas devemos toda a dedicação. A isto, chamamos de “diligência”, cultivar algo de forma zelosa e ininterrupta, como um filete de água que perfura a pedra.


Diligência é uma atitude a ser tomada e não uma conseqüência do “gostar”. A princípio, qualquer tarefa que ganhe nossa simpatia é suficiente para nos seduzir. É como banhar-se em águas calmas e rasas. Embora prazerosas, não nos levarão a grandes descobertas. Vivendo em um universo regido por forças opostas, devemos perceber que, ao nos aprofundarmos, nenhuma atividade é inteiramente prazerosa. Qualquer trabalho, relacionamento, projeto, exigem dedicação e superação. Estes momentos, vistos inicialmente como dissabores, são a porta de entrada para um novo nível de excelência. Estes são os casos de atletas que suportam a dor física para superar seus limites e assim, elevam seu desempenho ou de artistas que refazem o mesmo esboço repetidamente para chegar a uma obra prima.


Se quisermos atingir nosso máximo potencial em qualquer área de nossa vida, não devemos esperar que nossas tarefas, por si só, nos fascinem. Isto seria “negligência”, o contrário de tudo que descrevemos aqui. Buscar apenas o prazer naquilo que fazemos é o caminho para a mediocridade.


Sejamos comprometidos dia após dia. Sejamos como a água que molda as pedras.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O não-preconceito


Creio que seja uma das virtudes mais importantes a serem incentivadas em nós mesmos.

Ontem à noite tive a rara oportunidade de passar algum tempo com um senhor bastante simpático chamado Sr. Concílio, que aos 88 anos, demonstrando os sinais claros da idade avançada, me falou sobre sua mocidade em um esforço quase sobre-humano para lembrar-se dos detalhes de suas histórias.

Como já disse, raramente o encontro, e percebo que ele nem sempre se recorda que já fomos apresentados. Ainda assim, ele cumprimenta a mim, e também a todos, de forma terna, com uma simpatia e uma serenidade invejável em seu olhar. Penso que ali está alguém disposto a aceitar qualquer ser humano de forma igualitária.

O preconceito não está apenas na discriminação racial, social ou religiosa. Ele muitas vezes está impregnado em nossos pensamentos cotidianos. É comum presumirmos que conhecemos o comportamento de alguém baseado em algumas horas de convívio, ou mesmo naquilo que ouvimos sobre determinada pessoa. Criamos nossas verdades sobre o mundo a nossa volta e nos prendemos a elas como se fossem inalteráveis.

Como tudo na vida, é claro que o preconceito tem um lado positivo, ele nos traz segurança. Permite-nos livrar de situações potencialmente perigosas, como mudar de caminho ao trafegar em uma rua escura, com figuras suspeitas. É válido em nível de sobrevivência, mas extremamente nocivo em um nível social.

Adotar o não-preconceito não me parece algo fácil. Muitas vezes ele é invisível em nosso comportamento e ocorre apenas no campo emocional e mental. Nossa mente envia impulsos, muitas vezes instantâneos, difíceis de serem controlados, no entanto, penso que podemos nos educar a sempre questionarmos se nossas percepções iniciais merecem o mérito que costumamos lhes dar.

Penso que a forma mais saudável e correta de agir seria seguir o exemplo de seu Concílio, cujo nome (que significa união e conciliação), é tão pertinente para este tópico, e tão necessário para um convívio pacífico entre nós e aqueles que nos cercam.