segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
O que aprender com o atropelamento de 20 ciclistas em Porto Alegre
quinta-feira, 24 de junho de 2010
O Deixar ir (de nossas ilusões)
Hoje li um belíssimo trecho do livro “You are here” do monge Thich Nhat Hanh, postado no blog http://sangavirtual.blogspot.com. Tão significativo foi para mim que quase que imediatamente decidi abordá-lo nessa postagem.
Este texto nos fala sobre o desapego como o único caminho para a verdadeira felicidade. Para mim essa frase faz todo o sentido. No meu modo de ver, o desapego descrito aqui não se refere apenas aos bens materiais, mas principalmente às nossas idéias. Em um sentido mais amplo, bens materiais são também idéias (de felicidade, segurança, conforto, status, etc).
Em cada fase da minha vida criei ideais de felicidade. Receitas que me levariam a uma vida plena e cheia de satisfação. Receitas estas, tantas vezes modificadas, ao ponto de me fazer perceber que a própria idéia de um “caminho para felicidade” é imatura. A felicidade deve fazer parte de seu caminho.
O mesmo texto narra uma passagem em que Buda e seus discípulos foram abordados por um fazendeiro que lhes perguntou: “Veneráveis monges, vocês viram minhas vacas por aqui? Eu tenho dezenas de vacas e elas fugiram. Além disso, eu tenho cinco acres de plantação de gergelim e este ano os insetos comeram tudo. Eu acho que vou me matar. Eu não posso continuar a viver assim”.
Buda sentiu forte compaixão por aquele homem. Disse-lhe que não havia visto suas vacas. Quando o fazendeiro se foi, o Buda se voltou para seus monges e disse: “Meus amigos, sabem por que vocês são felizes? Porque vocês não têm vacas para perder”.
Não sou um monge, e não digo que devemos abrir mão de nossas posses. Nem sequer entendo esta passagem como uma ode àqueles que, por opção, vivem apenas com a roupa do corpo. Não se trata do clichê do “Rico infeliz” x “miserável alegre”, mas do fato de que muitas vezes nos tornamos escravos de nossos ideais e das coisas que julgamos serem tão essenciais que não poderíamos viver sem. Uma mente escravizada nunca será feliz. Em resumo, acredito que seja rico, pobre, belo, feio, poderoso, humilde, no fim, nossa felicidade será medida pela média de sorrisos e momentos de paz que tivemos em cada um de nossos dias.
Libertar a mente não é uma tarefa fácil. Nossas ilusões são tão intricadas não há como nos desfazermos apenas de uma por vez. A renúncia de uma influencia em outra. Como um grande emaranhado de barbantes onde não é possível desembaraçar e livrar-se apenas de um. É preciso estar disposto a, calmamente, desatar os vários nós que aprisionam nossa mente.
terça-feira, 15 de junho de 2010
Diligência (comprometimento com nossas tarefas)

Ao olharmos para trás, nos parecem incontáveis as inúmeras atividades que já exercemos durante nossa vida. Vivemos fases nas quais nos dedicamos aos mais diversos tipos de esportes, brincadeiras, artes, relacionamentos, estudo, etc. Sendo assim, não podemos achar que nosso tempo de vida nos permita chegar a excelência de cada tarefa que assumimos.
No entanto, enquanto algumas atividades tornam-se lembranças, outras continuam a fazer parte de nosso momento presente, e a estas devemos toda a dedicação. A isto, chamamos de “diligência”, cultivar algo de forma zelosa e ininterrupta, como um filete de água que perfura a pedra.
Diligência é uma atitude a ser tomada e não uma conseqüência do “gostar”. A princípio, qualquer tarefa que ganhe nossa simpatia é suficiente para nos seduzir. É como banhar-se em águas calmas e rasas. Embora prazerosas, não nos levarão a grandes descobertas. Vivendo em um universo regido por forças opostas, devemos perceber que, ao nos aprofundarmos, nenhuma atividade é inteiramente prazerosa. Qualquer trabalho, relacionamento, projeto, exigem dedicação e superação. Estes momentos, vistos inicialmente como dissabores, são a porta de entrada para um novo nível de excelência. Estes são os casos de atletas que suportam a dor física para superar seus limites e assim, elevam seu desempenho ou de artistas que refazem o mesmo esboço repetidamente para chegar a uma obra prima.
Se quisermos atingir nosso máximo potencial em qualquer área de nossa vida, não devemos esperar que nossas tarefas, por si só, nos fascinem. Isto seria “negligência”, o contrário de tudo que descrevemos aqui. Buscar apenas o prazer naquilo que fazemos é o caminho para a mediocridade.
Sejamos comprometidos dia após dia. Sejamos como a água que molda as pedras.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
O não-preconceito

Creio que seja uma das virtudes mais importantes a serem incentivadas em nós mesmos.
Ontem à noite tive a rara oportunidade de passar algum tempo com um senhor bastante simpático chamado Sr. Concílio, que aos 88 anos, demonstrando os sinais claros da idade avançada, me falou sobre sua mocidade em um esforço quase sobre-humano para lembrar-se dos detalhes de suas histórias.
Como já disse, raramente o encontro, e percebo que ele nem sempre se recorda que já fomos apresentados. Ainda assim, ele cumprimenta a mim, e também a todos, de forma terna, com uma simpatia e uma serenidade invejável em seu olhar. Penso que ali está alguém disposto a aceitar qualquer ser humano de forma igualitária.
O preconceito não está apenas na discriminação racial, social ou religiosa. Ele muitas vezes está impregnado em nossos pensamentos cotidianos. É comum presumirmos que conhecemos o comportamento de alguém baseado em algumas horas de convívio, ou mesmo naquilo que ouvimos sobre determinada pessoa. Criamos nossas verdades sobre o mundo a nossa volta e nos prendemos a elas como se fossem inalteráveis.
Como tudo na vida, é claro que o preconceito tem um lado positivo, ele nos traz segurança. Permite-nos livrar de situações potencialmente perigosas, como mudar de caminho ao trafegar em uma rua escura, com figuras suspeitas. É válido em nível de sobrevivência, mas extremamente nocivo em um nível social.
Adotar o não-preconceito não me parece algo fácil. Muitas vezes ele é invisível em nosso comportamento e ocorre apenas no campo emocional e mental. Nossa mente envia impulsos, muitas vezes instantâneos, difíceis de serem controlados, no entanto, penso que podemos nos educar a sempre questionarmos se nossas percepções iniciais merecem o mérito que costumamos lhes dar.
Penso que a forma mais saudável e correta de agir seria seguir o exemplo de seu Concílio, cujo nome (que significa união e conciliação), é tão pertinente para este tópico, e tão necessário para um convívio pacífico entre nós e aqueles que nos cercam.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Desapego (sobre as perdas que sofremos)

Para alguns pode soar estranho entender o desapego como uma virtude, afinal, temos o apego quase como um sinônimo para o amor e afeto. Há algum tempo também o via dessa forma. Embora doutrinas espirituais não sejam o tema principal deste blog, é difícil falar sobre o desapego sem mencionar algumas idéias budistas que tanto me cativam.
Para o budismo o apego nada tem a ver com amor. Embora capazes de amar de forma plena, devemos estar dispostos a enxergar o fato de que vivemos em um universo em constante transformação. Nascimento e morte são ilusões, no sentido de que nada simplesmente surge ou desaparece, apenas se transforma. Uma onda é uma onda, dotada uma individualidade. Ao quebrar na praia, ela deixa de ser onda, mas em momento algum ela deixou de ser mar. Desapegar-se é enxergar com clareza a essência real de todos nós.
Reconhecemo-nos em nossos corpos e em nossos cérebros, mas ambos são apenas um conjunto de células. Células estas que se renovam, como peças de um motor que são trocadas até nada restar do motor original. Nosso corpo hoje é inteiramente novo em relação ao corpo que tínhamos há alguns anos. E ainda assim continuamos nos reconhecendo. Isso porque somos mais do que células. Somos também nossos pensamentos, sentimentos e ações. Somos a mudança que geramos no mundo a nossa volta. Esse é o princípio do “Karma” descrito no budismo.
Quem perde alguém que ama, deve aprender a enxergá-lo não apenas na forma de corpo, mas na forma de suas ações, que continuarão fazendo parte daqueles que foram transformados por elas, e que por sua vez, transformarão outros, em um efeito multiplicador. Devemos nos desapegar da individualidade, nossa e daqueles a nossa volta. Pois trata-se de uma ilusão, sendo sempre impermanente.
Não basta enxergar a onda. É preciso enxergar o mar.
Os endereços abaixo oferecem mais pensamentos sobre o tema:
http://opicodamontanha.blogspot.com/ (do Monge Zen Budista Genshô)
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Otimismo

No processo de mudança acelerado em que vivemos é comum perdermos nosso foco. Embora digna, a busca pelo crescimento social e profissional nos faz esquecer nosso crescimento espiritual (o que não deve ser confundido aqui com uma evolução em uma doutrina religiosa).
Não por acaso, o otimismo foi a primeira virtude sobre a qual quis escrever. Afinal de contas, o otimismo é fator primordial para qualquer grande transformação. Grandes feitos no mundo tiveram como alicerce o otimismo inabalável de seus líderes, assim como as grandes mudanças em nossas vidas devem ter como base o nosso próprio otimismo.
Não é saudável confundir otimismo com “pensamento positivo”. Otimismo não se trata de achar que o melhor (ou aquilo que compreendemos como “melhor” em um determinado momento) sempre irá nos acontecer, mas sim em manter-se disposto a encarar as situações focando-se em seus aspectos mais positivos.
Os problemas do mundo não são obstáculos para o otimismo. Pelo contrário, são suas sementes, afinal ele só faz sentido em um mundo imperfeito.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Porque escrever sobre as virtudes?

Esta é a primeira postagem de um blog público, mas possivelmente cheio de significados e interpretações muito pessoais, tanto para mim quanto para quem vier a acompanhá-lo. Particularmente o vejo como um caminho para tornar-se alguém melhor. Afinal, a capacidade de mudar é sim, uma virtude.
Passei muitos anos me vendo como um ser imutável, completo em vários sentidos, no entanto, hoje, com os primeiros sinais de cabelos brancos, comecei a perceber que as transformações que sofremos no decorrer da vida são inevitáveis. Felizmente, com alguma determinação, podemos direcioná-las no sentido de tornar nossa vida, e a das pessoas em nossa volta, mais plena.
Atos de amor, coragem, respeito, etc, estão enraizados em todas as religiões, não importando suas vertentes. Isso porque as virtudes são anteriores a qualquer credo. São parte fundamental daquilo que nos faz seres humanos, e em um sentido mais amplo, seres viventes.
No entanto, contar apenas com os valores que aprendemos quando crianças ou mesmo com o instinto natural de fazer o bem pode ser comparado a banhar-se em um lago de águas rasas. Para manter-se fiel aos seus valores e tornar-se um ser humano melhor em um mundo tão complexo, é preciso refletir sobre as transformações que buscamos para nós mesmos, é preciso se aventurar em águas mais profundas. Este é o objetivo único deste blog.
