
Para alguns pode soar estranho entender o desapego como uma virtude, afinal, temos o apego quase como um sinônimo para o amor e afeto. Há algum tempo também o via dessa forma. Embora doutrinas espirituais não sejam o tema principal deste blog, é difícil falar sobre o desapego sem mencionar algumas idéias budistas que tanto me cativam.
Para o budismo o apego nada tem a ver com amor. Embora capazes de amar de forma plena, devemos estar dispostos a enxergar o fato de que vivemos em um universo em constante transformação. Nascimento e morte são ilusões, no sentido de que nada simplesmente surge ou desaparece, apenas se transforma. Uma onda é uma onda, dotada uma individualidade. Ao quebrar na praia, ela deixa de ser onda, mas em momento algum ela deixou de ser mar. Desapegar-se é enxergar com clareza a essência real de todos nós.
Reconhecemo-nos em nossos corpos e em nossos cérebros, mas ambos são apenas um conjunto de células. Células estas que se renovam, como peças de um motor que são trocadas até nada restar do motor original. Nosso corpo hoje é inteiramente novo em relação ao corpo que tínhamos há alguns anos. E ainda assim continuamos nos reconhecendo. Isso porque somos mais do que células. Somos também nossos pensamentos, sentimentos e ações. Somos a mudança que geramos no mundo a nossa volta. Esse é o princípio do “Karma” descrito no budismo.
Quem perde alguém que ama, deve aprender a enxergá-lo não apenas na forma de corpo, mas na forma de suas ações, que continuarão fazendo parte daqueles que foram transformados por elas, e que por sua vez, transformarão outros, em um efeito multiplicador. Devemos nos desapegar da individualidade, nossa e daqueles a nossa volta. Pois trata-se de uma ilusão, sendo sempre impermanente.
Não basta enxergar a onda. É preciso enxergar o mar.
Os endereços abaixo oferecem mais pensamentos sobre o tema:
http://opicodamontanha.blogspot.com/ (do Monge Zen Budista Genshô)
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